terça-feira, 9 de setembro de 2014

Censura econômica

Alexandre Schwartsman: BC considerou ofensivas as declarações na
imprensa por parte do economista
Nos últimos meses, o governo federal nunca apresentou sinais tão claros de desespero e desgaste na atual gestão. São diversas áreas que não têm alcançado metas e resultados satisfatórios e planejados com cautela. Além da economia brasileira, o resultado negativo mais recente foi na área educacional do país. No dia 5 de agosto de 2014, o Ministério da Educação divulgou os resultados do Ideb, após semanas de atraso. O ministro afirma que o período de divulgação ocorreu dentro do prazo aceitável e nega que o resultado poderia atrapalhar ainda mais os resultados das eleições deste ano. Embora o desempenho do Ensino Fundamental (1º ao 5º ano) do Brasil tenha ultrapassado a meta estipulada pelo governo, as demais etapas de ensino não alcançaram o resultado esperado. 

No campo econômico, não é de hoje que o mercado - de todos os segmentos - estão insatisfeitos com a atual equipe econômica do governo (Ministério da Fazenda e Banco Central Brasileiro). Como respostas aos números preocupantes de intenções de voto a reeleição, a presidente Dilma Rousseff anunciou que irá trocar a gestão econômica do país no próximo ano, caso eleita. Ela afirma que o próprio ministro Guido Mantega pediu a renúncia, mas muitos economistas acreditam que seja a resposta para as tantas desconfianças nos planejamentos do governo. 

É triste observar que o ministro Guido tenha se desgastado quase que totalmente a sua imagem durante os 12 anos à frente da equipe econômica do país. Na gestão do ex-presidente Lula, a autoridade obteve confiança plena do mercado e tornou-se símbolo eficiente da boa gestão na economia brasileira, que naquela época só havia elogios, prosperidade, esperança e confiança. Não se sabe ao certo o que ocorreu com Mantega na gestão de Dilma para que sua iluminação tenha ofuscado. 

Hoje, os brasileiros já sentem os efeitos negativos na economia nas rotinas diárias: almoçar fora de casa ficou mas caro, tomar um cafézinho na padaria foi substituído, realizar compras mensais no supermercado tem sido um malabarismo na escolha certa de produtos e marcas mais baratas, realizar uma compra parcelada é sinônimo de juros cada vez mais altos, tentar conseguir um financiamento para um imóvel já não é tarefa fácil...

São inúmeros os exemplos de que nossa economia já não é mais a mesma. O surgimento da "nova classe C brasileira" hoje anda endividada, e as lojas realizam saldos fora de época para tentar atrair os poucos que não estão no vermelho. 

Diante desse cenário é comum, num país democrático, que economistas, políticos de oposição, formadores de opinião, jornalistas opinativos e demais cidadãos brasileiros (e estrangeiros) possam opinar, sugerir e criticar a atual gestão... não para o Banco Central. Essa semana, o economista Alexandre Schwartsman, sócio-diretor da Schwartsman Associados e ex-diretor da Área Internacional do Banco Central foi processado pela autoridade monetária por ter criticado o trabalho do BC em tentar combater a inflação, acelerar o ritmo do PIB, combater os altos juros da taxa básica Selic e outros. 

Nada de mais! Para o Banco Central, o economista ofendeu os trabalhos do BC. Quem leu a entrevista de Schwartsman no Correio Braziliense (pilar de toda a movimentação jurídica da autoridade monetária) não viu exageros, e sim a simples prática do exercício da liberdade de expressão, concedida a todo cidadão brasileiro. Prova disso que um grupo de empresários, economistas e demais autoridades econômicas estão se movimentando em forma de repúdio contra a atitude do Banco Central. 

A Justiça Federal de São Paulo já apresentou liminar favorável para Schawartsman e não acatou a denúncia do próprio Banco Central. O procurador-geral do BC avisou que irá recorrer da decisão, mas o episódio já deixa claro a evidência intolerante do governo em receber críticas por parte de qualquer cidadão. 


sábado, 26 de julho de 2014

Governo libera crédito de R$ 45 bilhões na economia

No final desta semana, o governo tomou uma atitude bastante suspeita e curiosa para a maioria dos economistas. Logo após a reunião do Comitê de Polícia Monetária (Copom), o Banco Central (BC) decidiu aumentar o crédito disponível na economia brasileira de até R$ 45 bilhões. Na reunião, o BC também decidiu manter o mesmo patamar da taxa básica de juros (Selic) em 11% ao ano.

Contudo, sabemos que a economia brasileira pouco mudou nos últimos dois ou três anos. Desde a crise financeira mundial de 2008, o BC tem tomado as mesmas estratégias para fortalecer com "sustentação" a economia do país. O problema é que o cenário global mudou, mas a equipe econômica. Sendo assim, o resultado é o Índice de Preço ao Consumidor Amplo (IPCA) cada vez mais alta (e resistente) e o Produto Interno Bruto (PIB) cada vez mais baixo.

As estratégias do governo não tem dado certo porque insiste em usar a mesma tática velha e ultrapassada. Na crise de 2008, a equipe econômica (Ministério da Fazendo e o Banco Central) tomou diversas medidas para estimular o consumo interno no país. Enquanto países da Europa e dos EUA sofriam com a crise financeira, atingidos em cheio nos seus índices de exportação, o Brasil usou a boa estratégia de liberação de crédito, redução de impostos sob produtos nacionais e criação de incentivos fiscais para fazer a economia interna girar. As medidas deram certo e o país avançou como um foguete, economicamente falando, juntamente com os demais países emergentes, todos sentindo pouco dos efeitos da crise global.

Mas, como muitos economistas alertavam na época, as estratégias foram válidas se fossem tomadas apenas de forma temporária, ou seja, o governo não poderia adotar as mesmas medidas por longo período. Para haver um crescimento sustentável e de longo prazo, o país deve realizar investimentos em seus setores.

Todos sabem que a liberação de créditos para estimular o consumo ajuda, mas não sustenta. Pois chegará num período em que as famílias estarão no limite de seus endividamentos. Dados mais recentes já têm mostrado isso, mas parece que o governo se recusa a observar. E o que é uma economia sustentável?

Países desenvolvidos aprenderam que investir significa recolher bons frutos num futuro próximo e de longo prazo. Uma nação que possui mão de obra operária qualificada mostra que investiu pesado na educação. Uma nação que possui forte competitividade na indústria e no comércio, mostra que investiu pesado na diminuição da burocracia, nos incentivos fiscais e (principalmente) na infraestrutura de suas estradas, portos, aeroportos e ferrovias - o que é uma realidade muito diferente no Brasil.

Constantemente, observamos nossas rodovias esburacadas e perigosas, nossas ferrovias muito limitadas e velhas, nossos portos congestionados e nossos aeroportos de carga ineficientes. Sem falar nos altos e pesados impostos que cada empresa e indústria precisa contribuir para os governos municipais, estaduais e federal, sem usufruir do retorno desses investimentos.

Sabemos que a economia brasileira nesse e no próximo ano (2015) continuarão fracas e com inflação alta. E, certamente, essa última medida do Banco Central não resultará em praticamente nada para melhorar esse cenário. Resta então observar como a economia se comportará nos próximos dias.

quinta-feira, 27 de março de 2014

O difícil (fácil) papel da S&P

Standard & Poor's (France Presse)
Nesta semana, a equipe econômica do governo Dilma foi surpreendida com a rápida decisão da agência Standart & Poor's. Para o mercado, não foi nenhuma novidade. Mas, o governo ainda tinha esperanças de reverter o inevitável resultado. O problema é que ele surgiu antes mesmo das eleições de outubro, e que agora deverá ser usado como arma para os adversários na corrida presidencial de 2014. 

O Brasil chegou ao menor nível de grau de investimento para a S&P (BBB-). Junto, estão países como Espanha, Índia, Azerbaijão e Filipinas. Mas, as demais agências de classificação de risco - Moody's e Fitch Ratings - os brasileiros estão na penúltima colocação de grau de investimento: Baa2 e BBB, respectivamente. Diante de todos esses resultados, significa que ainda temos a "fama" de bons pagadores, ou seja, de honrar com as dívidas externas e, por isso, somos um bom atrativo para investimentos estrangeiros: não por muito tempo. 

Se continuarmos errando gradativamente nos investimentos e nas administrações do nosso dinheiro público, o país deverá ser rebaixado novamente pela mesma agência (S&P), atingindo a marca de "grau especulativo", ou seja, na classificação de países que não são bons atrativos para investimentos estrangeiros, além de terem grandes chances de darem "calote", ou seja, não honrarem seus compromissos fiscais - o que é péssimo para qualquer nação. 

Para o governo, este resultado não retrata a realidade brasileira, pois o país possui grandes reservas internacionais e ótimos atrativos de investimentos estrangeiros. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirma ainda que  houve precipitação da agência de classificação de risco. Os demais integrantes da base governista criticam duramente a agência, fazendo questão de lembrar dos sucessivos erros das três agências de risco na crise de 2008. 

De fato, as agências perderam grande credibilidade no mundo retratando classificação máxima para os papéis imobiliários "podres" dos Estados Unidos, inclusive do próprio país, que possuía, na época, o rating máximo de "AAA". Mas, é importante lembrar que este mesmo governo brasileiro comemorou a elevação do rating dos brasileiros nesta época, afirmando que este era o resultado do caminho certo que o Brasil estava seguindo.  

Agora, por diversos erros e tropeços, além da falta de transparência do governo, o país recebe rebaixamento no grau de investimento. O mercado reagiu tão calmo diante da notícia que a Bolsa de Valores continuou seguindo por dois dias consecutivos em valorização, enquanto o dólar caía levemente. Significa que o rebaixamento já era certo por todos, somente o governo que não consegue abrir os "olhos" e reagir diante do cenário cada vez mais preocupante. 

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Um remédio amargo

Reunião do Copom, no Banco Central
Subir ou não subir a taxa básica de juros? Eis a questão... O questionamento tem atormentado o Banco Central e toda a cúpula econômica do Governo, após a surpreendente e desagradável notícia do resultado oficial da inflação de 2013 – maior do que de 2012. Nesta noite (15 de janeiro), a votação do Copom – Comitê de Política Monetária – foi unânime: aumento de 0,5% da taxa Selic, chegando a 10,5%.

Trata-se de um remédio amargo para a economia brasileira. Sim, remédio porque é considerada uma medida necessária para combater com mais firmeza a alta do IPCA – Índice de Preço ao Consumidor Amplo. Muitos economistas já apostavam na alta da Selic, alguns em 0,25 p.p outros em 0,5 p.p

O problema, é que o amargo desta dose é justamente o desempenho do PIB, que certamente será afetada. As projeções para este ano no país não são nada agradáveis, mas ainda sim tornamo-nos números desejáveis para muitos países europeus, que ainda lutam para sair da longa recessão e depressão econômica.

Mesmo com o fraco desempenho da nossa economia, os brasileiros continuaram consumindo fortemente, principalmente, com a ampliação do crédito. Esta última decisão do Banco Central, serve justamente para frear – moderadamente – este consumo. Desta forma, os aumentos do IPCA devem perder fôlego e melhorar os índices da inflação.

Como é de costume, a reunião do Copom deixou uma “pista” para as projeções das próximas reuniões: “Dando prosseguimento ao ajuste da taxa básica de juros”. Com isso, economistas acreditam que haverá mais elevações nos próximos encontros.


A primeira atitude de combate à inflação brasileira deste ano foi largada. Agora, é esperar para colher os resultados desta decisão. 

Rafael Rodrigues

domingo, 10 de novembro de 2013

Comércio Barrado

O Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV) divulgou, na última semana, um estudo sobre a abertura da economia de 122 países. Sem apresentar surpresa, o Brasil obteve a última colocação há dois anos. Perdemos até para países comunistas e não tão fortes economicamente, como a China (com 59% de abertura), Colômbia (com 39% de abertura) e a Índia (com 54% de abertura). O Brasil cresceu nas últimas décadas: de 17%, em 1991, para 25%, em 2011. Como podemos observar, ainda é muito pouco. A sua economia permanece bastante fechada.

Quem surpreendeu mesmo foi a Coréia do Sul. O seu grau de abertura econômica subiu de 55% para 110%. Embora a nossa indústria brasileira tenha reclamado da entrada de produtos importados no país, nos últimos anos, a nossa economia continua muito fechada. Este incômodo retrata bem a fraqueza das nossas indústrias para enfrentar a competitividade. Se estivessem na Coréia do Sul, por exemplo, elas não sobreviveriam por muito tempo.

Ironicamente, até mesmo a Argentina – que inventou inúmeras medidas protecionistas nos últimos anos – está mais aberta que nós em 2011 (41%, mesmo percentual do Chile). Estados Unidos e Japão, ambos com 32% de grau de abertura econômica. Mas afinal, o que esses números representam para o desenvolvimento da nossa economia? Muita coisa.

Existem inúmeros benefícios que a abertura comercial pode proporcionar no crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) e na produtividade. Já uma economia fechada é ruim para o desenvolvimento do país. O Brasil se saiu muito bem quando estourou a crise financeira mundial em 2008, incentivando o consumo interno. Deu certo, temporariamente. O problema, é que o país continuou apostando nesta carta, e hoje paga pelo comodismo.


Diante dos sinais de esgotamento no consumo interno, o nosso país precisa ampliar as suas transações comerciais para ganhar mais relevância e competitividade. Não há motivos para continuarmos tão restritos no comércio globalizado. 

Rafael N. Rodrigues

sábado, 29 de junho de 2013

A desconfiança chinesa

No segundo semestre de 2008 observávamos a maior crise financeira dos EUA surgindo, consequentemente, afetando diversos países do mundo. Vários economistas alegavam que aquela crise foi pior do que de 1929, seguida pela depressão dos anos 30.

Alguns anos depois, estoura a crise do euro. Diferentemente dos americanos, os europeus não souberam controlar seus gastos e a Grécia extrapolou sua dívida monetária, provocando um efeito “dominó” nas demais nações da zona do euro.

Com os países desenvolvidos em crise, os emergentes como os BRICs – Brasil, Rússia, Índia, China e a recente África do Sul – passaram a se destacar no cenário econômico global, e foram considerados os refúgios daqueles que fugiam da crise.

Agora o cenário é outro, mas ainda semelhante. Os países ricos continuam se recuperando lentamente da recessão, mas os emergentes começam a perder fôlego e registram baixo crescimento. Enfrentaram a crise global com firmeza, mas como vivemos numa globalização, nenhuma nação está livre para crescer de forma independente.

O problema agora são os chineses. Considerados super potência econômica e a mais forte entre os BRICs, a China vem perdendo fôlego por uma razão nada saudável: a desconfiança. Os juros cobrados pelos interbancários subiram 13% no mês passado, a máxima histórica em uma das modalidades de crédito.

Após aumentarem seus créditos para impulsionar sua economia, de 125% a 200% entre 2008 a 2013, os bancos chineses começam a levantar juros e travar empréstimos. A estratégia para sustentar a economia chinesa começa a trazer claros sinais de que a inadimplência pode começar a travar o avanço econômico.

O problema é que cada vez mais o mundo está se tornando dependente da China, e embora haja falta de transparência chinesa, o presidente do BC chinês admite que há problemas.

Rafael Rodrigues